segunda-feira, 6 de setembro de 2010

COMUNHÃO

Todos os meus mortos estavam de pé, em círculo, eu no centro.

Nenhum tinha rosto. Eram reconhecíveis pela expressão corporal e pelo que diziam no silêncio de suas roupas além da moda e de tecidos; roupas não anunciadas nem vendidas.

Nenhum tinha rosto. O que diziam escusava resposta, ficava, parado, suspenso no salão, objeto denso, tranquilo.

Notei um lugar vazio na roda.

Lentamente fui ocupá-lo.

Surgiram todos os rostos, iluminados.


Carlos Drummond de Andrade

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