sábado, 11 de setembro de 2010

mini e estéril

Será por quê o mini e estéril acabou?
Será por culpa de um fulano seu doutor
chamado individualismo ou quem sabe egoísmo?
Pode ser também aquela falta de amor.
Quem sabe o mini e estéril ainda funcionou
graças aquele que em obediência orou
chamando a graça repartida numa vontade infinita
de ver algo acontecer pro seu Senhor...

"...será só imaginação, será que nada vai acontecer, será que é tudo isso em vão, será que vamos conseguir vencer..." (Renato Russo)

um em todos e todos em um

os corações de um só, a voz de todos
os astros do céu, a luz do povo
desde quando um mais um é um?
desde quando dois mais dois são quatro?

vemos muitos com uma fé
sabemos da fé de muitos
vamos juntos a pé
sentimos o pé do mundo
comungar é preciso!

quando pensamos estar aqui
caminhamos noutra estrada
quando vamos sozinhos
encontramos irmãos na calada
comungar necessito!

Pecado e Paz

Luz apagada nada mostra
Tempero sem uso nega o gosto
Água parada, bicho dá
Mágoa cultivada, grande risco

Meu pecado é saber o que fazer e me safar
O pecado é morte ver sem vida dar
Mas pecado desse jeito tem solução
Porque pecado já se venceu na crucificação

Luz acesa limpa a vista
Tempero usado, apetite
Água que corre faz nascer
Mágoa esquecida, pedra lisa

Minha paz é seguir o rumo do bem comum
A paz é a vida que habita no três em um
Mas a paz desejada clama do coração
Porque a paz é encontrada em fé na ressurreição

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então só eu que sou vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

COMUNHÃO

Todos os meus mortos estavam de pé, em círculo, eu no centro.

Nenhum tinha rosto. Eram reconhecíveis pela expressão corporal e pelo que diziam no silêncio de suas roupas além da moda e de tecidos; roupas não anunciadas nem vendidas.

Nenhum tinha rosto. O que diziam escusava resposta, ficava, parado, suspenso no salão, objeto denso, tranquilo.

Notei um lugar vazio na roda.

Lentamente fui ocupá-lo.

Surgiram todos os rostos, iluminados.


Carlos Drummond de Andrade