
- Estão sempre chegando para despedida, isso é certo! Exclamou a vela com a concordância de sua companheira de menor estatura e mais experiência no ramo de iluminação das almas.
Naquela madrugada fria no velório de Mirassol, uma capelinha dentro do cemitério municipal onde cabia apenas um caixão por vez e dois grandes castiçais ao lado do mesmo, lá estavam elas iluminando as almas de vivos e mortos, com suas, também companheiras, coroas de flores que num caso inédito lotavam aquele lugar.
Dadas por amigos ou por simples conhecidos que apenas queriam se mostrar solidários e de alguma forma presentes, as coroas estavam ali provavelmente para tentar embelezar a morte, que era por acaso o assunto das velas. Eram elas grandes e com o passar do tempo se desgastavam pelo fogo que as ascendia, além disso, ficavam sempre ao lado do falecido ou falecida numa visão privilegiada do acontecimento.
Ali presenciavam a tristeza de uns e o alívio de outros, a dor do adeus e o “foi tarde”, lágrimas e piadas ao fundo. Viam também as famílias enfim reunidas e realmente achavam aquele o melhor lugar para trazer luz, afinal ficava bem clara a intenção das almas de vivos e mortos.
Suas luzes quando acesas por fósforos da cantina do velório ou isqueiros dos fumantes assíduos do evento, refletidas dentro dos olhos de quem observava o falecido podiam discernir segredos mais profundos daqueles corações.
As velas, chamadas aqui de Maior e Menor, dialogavam a respeito de seu árduo trabalho e de como era comum em toda sua curta vida ver diferentes mortos trazendo vivos tão semelhantes.
Desde que fora acesa vela Menor, que havia sido num passado não tão distante uma grande vela, percebeu que a sua primeira missão era iluminar um jovem senhor de quarenta e sete anos, que morreu por conta de um infarto fulminante. Pelo menos foi o que ela ouviu da dona de um famoso prostíbulo, uma parada obrigatória dos caminhoneiros nas estradas de São Paulo, conhecida como Rainha das Estradas. Ela era amante desse senhor conhecido como João Caminhoneiro e por tantas idas e vindas, ela sentia-se bem à vontade para falar sobre ele com os colegas de profissão do falecido que eram lhe também conhecidos de longa data. Mas isso aconteceu antes de ser expulsa do velório pela esposa de João, revoltada.
Sua esposa, dona Lúcia era uma mulher fiel que sempre fechou os olhos para os casos extra-conjugais do marido, e talvez por isso ela estava casada a mais de vinte anos com aquele senhor, mas ao ouvir tudo que era falado percebeu que não sabia tanto sobre ele como aquela mulher e como as outras que ao contrário desta choravam discretamente pelos cantos. Aliás, já havia perdido a conta de quantas mulheres foram chorar sobre o insaciável homem.
Apesar de seu olhar marcado pela desilusão da traição e pela vergonha, havia um ar de desamparo,pois ela o amava.Este não ficou muito tempo sendo velado porque já tinha falecido há alguns dias em outro estado numa de suas viagens, então trouxeram outro morto, ou melhor, morta.
Era uma menina de quinze anos que por sofrer com a depressão e com a rejeição do grande amor da sua vida se entregou ao suicídio. Ela se chamava Luciana Muara e por ocasião de uma vida totalmente solitária, apesar de toda a riqueza, sofria do conhecido mal do século. Aos quinze anos, no auge da sua adolescência, se apaixonou e em meio a carência se apegou além do normal ao seu professor de química que nem sonhava com essa paixão arrebatadora, só que esse não era mais um amor platônico.
Foi tão arrebatadora a paixão que quando Luciana descobriu que seu professor se casaria sentiu-se novamente rejeitada por alguém que ela julgava ser a última esperança de compartilhar sua vida e entregou-se permitindo que a morte a levasse com um pouco de veneno de rato.
Assim comentavam os conhecidos em volta do caixão, disse a vela Menor.
Mas quando notaram a aproximação da mãe de Luciana se calaram, por medo ou respeito não se sabe ao certo.
Aquela mulher que sempre trabalhou para dar tudo à filha não tinha palavras nem lágrimas que expressassem a imensa dor que sentia, ela havia engravidado ainda na adolescência e foi abandonada pelo pai de Luciana e por seus próprios pais, por isso sozinha lutava dia e noite para suprir as necessidades materiais de sua filha, uma meta que foi alcançada com sucesso. Mesmo assim os seus olhos refletiam o sentimento de frustração, pois em meio a todas as coisas que pôde dar a Luciana esqueceu-se de dar o amor transmitido na sua voz, toque e presença.
- Agora nos encontramos aqui vela Maior, o que você me diz? Interrogou a vela Menor e completou dizendo que os mortos e vivos estavam sempre chegando e que ela ainda teria a oportunidade de ver alguns casos como aqueles.
- Posso entender sua pequena estatura diante de tamanha experiência, respondeu a vela Maior.
As duas riram e passaram juntas a observar o morto que estava entre delas e que trazia pessoas tão conformadas e conscientes daquele momento sem carregar em seus olhares tamanha dor.Passaram a ouvir o que se dizia por todos que passavam pelo caixão que estava lacrado. As pessoas olhavam tristes pela perda, mas em oração faziam agradecimentos pelo ganho.
- Não compreendo. Você ouviu ou entendeu a oração? Disse a Maior.
- Não! Respondeu a Menor que já estava muito desgastada pelas horas.
- Esse rapaz de vinte e seis anos havia falecido há algumas horas por causa de um tumor no cérebro, com quem lutou pacificamente por quatro meses.
Seu nome era Felipe, um rapaz aparentemente saudável, bonito e ativo, muito consciente da importância da sua vida. E por isso terminou a vida, vivendo, como diziam todos.
Os olhos de seus familiares e de seus amigos e alunos demonstravam a admiração e a reflexão pessoal sobre a vida, não havia naqueles rostos tristeza ou frustração alguma.
Algo inédito até então e isso levou a juntas procurarem por uma explicação para o fato inimaginável.
Ouviram os comentários que se faziam naquela capela lotada e sua história de vida repetida inúmeras vezes. Felipe vinha de uma família de classe média alta, não tinha irmãos e havia ficado órfão aos doze anos por causa de um acidente que seus pais sofreram voltando das férias.Em meio ao sofrimento de perder os pais percebeu que não poderia trazê-los de volta, então resolveu que viveria por si mesmo e pelos seus pais da melhor forma que fosse possível, com uma intensidade que valeria pelos três. Assim ele o fez usando todos os seus recursos para aprender como transmitir o bem.
Ele era um jovem professor de Educação Física, e voluntariamente servia comunidades carentes, para através dos esportes doar um pouco da vida que carregava dentro de si, até o último dia que pôde, deixando sua marca registrada no coração de cada pessoa que teve a oportunidade de conhecer. Ele foi levado para a UTI e permaneceu ali algum tempo, mas esse era o momento de partir e sem revolta aceitou a morte que o encontrou com uma sensação de dever cumprido.
- Bom minha querida amiga, depois de muito analisar mortos e vivos, na vida e na morte chego a conclusão que na vida temos que viver e na morte morrer, disse a vela Menor.
- É verdade! Exclamou a vela Maior e completou dizendo:
- Entendi que quando não vivemos a nossa vida nos frustramos ou frustramos outros, como foi o caso de João Caminhoneiro. Este sempre quis viver várias vidas numa só, e não deu conta nem se deu conta de que sua vida era para ser vivida com sua mulher que também sofreu a morte antes mesmo que ela ocorresse.Também no caso de Luciana que não foi ensinada a viver a vida para que a própria não a fizesse sofrer. Com sua inesperada morte matou os sonhos de sua mãe que viveu para fazê-la viver. Mas aprendi em nossa análise que quando se vive a vida, a morte se torna uma semente que ao morrer gera vida e os frutos da vida como Felipe, um exemplo e inspiração para todos.
A vela Maior agradeceu por ser iluminada o fazendo em tom de piada, pois realmente elas que deveriam iluminar procuravam ali uma luz sobre a vida e a morte e juntas encontraram. Até que chegou a hora de partir da querida e experiente vela Menor, aliás muito menor, quase imperceptível.
- Bom amiga, agora é minha vez, já vivi a minha vida, faça o mesmo!
Despedindo-se assim a vela Menor de sua companheira vela Maior e coroas de flores dadas ao Felipe, o morto mais cheio de vida daquela pequena cidade.
Fernanda Pereira Torres
Naquela madrugada fria no velório de Mirassol, uma capelinha dentro do cemitério municipal onde cabia apenas um caixão por vez e dois grandes castiçais ao lado do mesmo, lá estavam elas iluminando as almas de vivos e mortos, com suas, também companheiras, coroas de flores que num caso inédito lotavam aquele lugar.
Dadas por amigos ou por simples conhecidos que apenas queriam se mostrar solidários e de alguma forma presentes, as coroas estavam ali provavelmente para tentar embelezar a morte, que era por acaso o assunto das velas. Eram elas grandes e com o passar do tempo se desgastavam pelo fogo que as ascendia, além disso, ficavam sempre ao lado do falecido ou falecida numa visão privilegiada do acontecimento.
Ali presenciavam a tristeza de uns e o alívio de outros, a dor do adeus e o “foi tarde”, lágrimas e piadas ao fundo. Viam também as famílias enfim reunidas e realmente achavam aquele o melhor lugar para trazer luz, afinal ficava bem clara a intenção das almas de vivos e mortos.
Suas luzes quando acesas por fósforos da cantina do velório ou isqueiros dos fumantes assíduos do evento, refletidas dentro dos olhos de quem observava o falecido podiam discernir segredos mais profundos daqueles corações.
As velas, chamadas aqui de Maior e Menor, dialogavam a respeito de seu árduo trabalho e de como era comum em toda sua curta vida ver diferentes mortos trazendo vivos tão semelhantes.
Desde que fora acesa vela Menor, que havia sido num passado não tão distante uma grande vela, percebeu que a sua primeira missão era iluminar um jovem senhor de quarenta e sete anos, que morreu por conta de um infarto fulminante. Pelo menos foi o que ela ouviu da dona de um famoso prostíbulo, uma parada obrigatória dos caminhoneiros nas estradas de São Paulo, conhecida como Rainha das Estradas. Ela era amante desse senhor conhecido como João Caminhoneiro e por tantas idas e vindas, ela sentia-se bem à vontade para falar sobre ele com os colegas de profissão do falecido que eram lhe também conhecidos de longa data. Mas isso aconteceu antes de ser expulsa do velório pela esposa de João, revoltada.
Sua esposa, dona Lúcia era uma mulher fiel que sempre fechou os olhos para os casos extra-conjugais do marido, e talvez por isso ela estava casada a mais de vinte anos com aquele senhor, mas ao ouvir tudo que era falado percebeu que não sabia tanto sobre ele como aquela mulher e como as outras que ao contrário desta choravam discretamente pelos cantos. Aliás, já havia perdido a conta de quantas mulheres foram chorar sobre o insaciável homem.
Apesar de seu olhar marcado pela desilusão da traição e pela vergonha, havia um ar de desamparo,pois ela o amava.Este não ficou muito tempo sendo velado porque já tinha falecido há alguns dias em outro estado numa de suas viagens, então trouxeram outro morto, ou melhor, morta.
Era uma menina de quinze anos que por sofrer com a depressão e com a rejeição do grande amor da sua vida se entregou ao suicídio. Ela se chamava Luciana Muara e por ocasião de uma vida totalmente solitária, apesar de toda a riqueza, sofria do conhecido mal do século. Aos quinze anos, no auge da sua adolescência, se apaixonou e em meio a carência se apegou além do normal ao seu professor de química que nem sonhava com essa paixão arrebatadora, só que esse não era mais um amor platônico.
Foi tão arrebatadora a paixão que quando Luciana descobriu que seu professor se casaria sentiu-se novamente rejeitada por alguém que ela julgava ser a última esperança de compartilhar sua vida e entregou-se permitindo que a morte a levasse com um pouco de veneno de rato.
Assim comentavam os conhecidos em volta do caixão, disse a vela Menor.
Mas quando notaram a aproximação da mãe de Luciana se calaram, por medo ou respeito não se sabe ao certo.
Aquela mulher que sempre trabalhou para dar tudo à filha não tinha palavras nem lágrimas que expressassem a imensa dor que sentia, ela havia engravidado ainda na adolescência e foi abandonada pelo pai de Luciana e por seus próprios pais, por isso sozinha lutava dia e noite para suprir as necessidades materiais de sua filha, uma meta que foi alcançada com sucesso. Mesmo assim os seus olhos refletiam o sentimento de frustração, pois em meio a todas as coisas que pôde dar a Luciana esqueceu-se de dar o amor transmitido na sua voz, toque e presença.
- Agora nos encontramos aqui vela Maior, o que você me diz? Interrogou a vela Menor e completou dizendo que os mortos e vivos estavam sempre chegando e que ela ainda teria a oportunidade de ver alguns casos como aqueles.
- Posso entender sua pequena estatura diante de tamanha experiência, respondeu a vela Maior.
As duas riram e passaram juntas a observar o morto que estava entre delas e que trazia pessoas tão conformadas e conscientes daquele momento sem carregar em seus olhares tamanha dor.Passaram a ouvir o que se dizia por todos que passavam pelo caixão que estava lacrado. As pessoas olhavam tristes pela perda, mas em oração faziam agradecimentos pelo ganho.
- Não compreendo. Você ouviu ou entendeu a oração? Disse a Maior.
- Não! Respondeu a Menor que já estava muito desgastada pelas horas.
- Esse rapaz de vinte e seis anos havia falecido há algumas horas por causa de um tumor no cérebro, com quem lutou pacificamente por quatro meses.
Seu nome era Felipe, um rapaz aparentemente saudável, bonito e ativo, muito consciente da importância da sua vida. E por isso terminou a vida, vivendo, como diziam todos.
Os olhos de seus familiares e de seus amigos e alunos demonstravam a admiração e a reflexão pessoal sobre a vida, não havia naqueles rostos tristeza ou frustração alguma.
Algo inédito até então e isso levou a juntas procurarem por uma explicação para o fato inimaginável.
Ouviram os comentários que se faziam naquela capela lotada e sua história de vida repetida inúmeras vezes. Felipe vinha de uma família de classe média alta, não tinha irmãos e havia ficado órfão aos doze anos por causa de um acidente que seus pais sofreram voltando das férias.Em meio ao sofrimento de perder os pais percebeu que não poderia trazê-los de volta, então resolveu que viveria por si mesmo e pelos seus pais da melhor forma que fosse possível, com uma intensidade que valeria pelos três. Assim ele o fez usando todos os seus recursos para aprender como transmitir o bem.
Ele era um jovem professor de Educação Física, e voluntariamente servia comunidades carentes, para através dos esportes doar um pouco da vida que carregava dentro de si, até o último dia que pôde, deixando sua marca registrada no coração de cada pessoa que teve a oportunidade de conhecer. Ele foi levado para a UTI e permaneceu ali algum tempo, mas esse era o momento de partir e sem revolta aceitou a morte que o encontrou com uma sensação de dever cumprido.
- Bom minha querida amiga, depois de muito analisar mortos e vivos, na vida e na morte chego a conclusão que na vida temos que viver e na morte morrer, disse a vela Menor.
- É verdade! Exclamou a vela Maior e completou dizendo:
- Entendi que quando não vivemos a nossa vida nos frustramos ou frustramos outros, como foi o caso de João Caminhoneiro. Este sempre quis viver várias vidas numa só, e não deu conta nem se deu conta de que sua vida era para ser vivida com sua mulher que também sofreu a morte antes mesmo que ela ocorresse.Também no caso de Luciana que não foi ensinada a viver a vida para que a própria não a fizesse sofrer. Com sua inesperada morte matou os sonhos de sua mãe que viveu para fazê-la viver. Mas aprendi em nossa análise que quando se vive a vida, a morte se torna uma semente que ao morrer gera vida e os frutos da vida como Felipe, um exemplo e inspiração para todos.
A vela Maior agradeceu por ser iluminada o fazendo em tom de piada, pois realmente elas que deveriam iluminar procuravam ali uma luz sobre a vida e a morte e juntas encontraram. Até que chegou a hora de partir da querida e experiente vela Menor, aliás muito menor, quase imperceptível.
- Bom amiga, agora é minha vez, já vivi a minha vida, faça o mesmo!
Despedindo-se assim a vela Menor de sua companheira vela Maior e coroas de flores dadas ao Felipe, o morto mais cheio de vida daquela pequena cidade.
Fernanda Pereira Torres
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